Na primeira parte vimos como da Mesopotâmia, e um pouco depois do Egipto, a cultura foi viajando até ao Levante (Fenícia). Atravessando o Mediterrâneo até Gadis (Cádis) e comerciando com Creta, influenciou Micenas na Grécia, criou Roma, forjou a Europa, e navegou da Ibéria para o mundo.
As civilizações foram teorizadas pelos historiadores no século XIX, mas a cultura foi fazendo o seu caminho de geografia em geografia, com avanços e recuos, miscigenada.
O berço da oftalmologia parece ser o Egipto.
Imhotep, o visir do faraó, foi o primeiro médico conhecido, em 2600 A.C.
Há descrições de patologias oculares no papiro de Ebers (1500 AC), o primeiro documento escrito de oftalmologia, que descreve o tracoma, lesões oculares traumáticas e as cataratas - quedas de águas que turvam a visão. O próprio Olho de Hórus inspirou o símbolo da prescrição médica no presente - R/.
Wedjat, o olho que Hórus perdeu na luta com Seth, era inclusivamente usado como um amuleto de cura.
Mas já na Mesopotâmia se praticava uma medicina rudimentar, com magia associada.
A cirurgia às cataratas, uma das primeiras a ser praticada, consistia em empurrar a lente do olho opacificada, com um estilete, e deixar o eixo visual livre. Portanto, a catarata não era removida, era apenas empurrada para o interior do olho. Foi inicialmente praticada na Índia e usada até ao século XVIII mesmo na Europa.
Hipócrates, denominado o pai da Medicina, foi um grego de Cós e o grande precursor no estudo da Medicina. Até então acreditava-se que os deuses eram responsáveis pelo que corria de mal em termos de saúde. Com Hipócrates, a medicina foi focada nas doenças e no doente. Criou a teoria dos 4 humores, que definem as causas das doenças, e os preceitos éticos dos médicos. Ainda hoje se pratica o juramento de Hipócrates. Galeno, um romano de origem grega, de Pérgamo, (1) seguiu os preceitos de Hipócrates e elaborou os comentários aos seus textos, deixando-nos uma obra vastíssima. De todos os textos gregos clássicos que se salvaram, a maioria são de Galeno.
Na época islâmica, foram escritos vários tratados dos olhos e de óptica, e foram traduzidos os grandes clássicos, que assim não se perderam.
Avicena (Ibn Sina) escreveu o Canon da Medicina, um tratado extenso de referência no Islão e Europa no Ano 1000.
Averróis (ibn Rushd) foi uma figura ímpar do Al Andaluz, conhecido pelos seus escritos sobre filosofia, mas também sobre Medicina, que ele praticava.
No Islão havia uma tradição cultural grande, com a cidade da Sabedoria em Bagdade. O médico Hunayn ibn Ishaq escreveu Os dez tratados do olho, livro deste oftalmologista pioneiro do século IX. A obra contém uma parte sobre a anatomia do olho, outra sobre as doenças e seus sintomas, e outra relativa a tratamentos com remédios e a cirurgias.
O Papa João XXI, o nosso Pedro Hispano, entre 1246 e 1252, ensinou medicina na Universidade de Siena, onde escreveu várias obras, entre as quais a Summulae Logicales, que foi um tratado de referência sobre lógica aristotélica usado nas universidades europeias durante mais de trezentos anos. Escreveu também oTractatus De Oculis – um tratado de oftalmologia – que teve uma ampla difusão nas universidades europeias na época. Conta-se que Michelangelo, aquando da pintura da Capela Sistina, teve problemas nos olhos e recorreu a esta obra para tentar solucioná-los. Existe na Biblioteca Apostólica do Vaticano uma cópia manuscrita pelo punho do artista de um receituário de Pedro Hispano.
Dante, autor da Divina Comédia, poema incontornável de mil e trezentos, narra a história da Igreja através de uma trilogia. Nas suas três partes, Inferno, Purgatório e Céu dá exemplos de personagens. A Pedro Hispano, papa João XXI – "o qual luz na terra em doze livros" – reserva um lugar no Paraíso.
Também Leonardo da Vinci, o génio da Renascença, fez cerca de 30 dissecações e deixou um legado de desenhos anatómicos único, tendo sido pioneiro em muitas descrições anatómicas.
Garcia da Orta escreve em Goa o Colóquio dos Simples, obra de farmacologia pioneira na Europa, em que analisa, através da sua experiência, o resultado prático dos tratamentos propostos com plantas.
Amato Lusitano foi um cristão-novo, que fugiu da Inquisição e viajou por toda a Europa. A sua obra Centuria Prima, onde descreve pela primeira vez os componentes vasculares da circulação sanguínea, mais tarde completados por Harvey, revela já um pensador médico moderno. Um exemplar desta obra encontra-se na Faculdade de Medicina do Porto.
Como vemos, tal como a História, também a Medicina e a Oftalmologia foram evoluindo com saberes acumulados em várias regiões e progredindo para a ciência moderna que hoje praticamos.
Numa das próximas Visão dia a dia iremos voltar a estes temas, mas noutras perspectivas.
1- Cidade onde foi inventado - daí o seu nome - o pergaminho (pele de ovelha onde manualmente se escreviam e desenhavam os textos antigos e depois se encadernavam).
Figura 1 Wedjat o olho de Hórus
Figura 2 Estela Deus dos Oftalmologistas
Figura 3 Hipócrtes com comentários de Galeno. Prognosticorum
Figura 4 Canon da Medicina de Avicena
Figura 5 o olho segundo Hunayn ibn Ishaq
Figura 6 Cirurgia a cataratas manuscrito da Bodleian Library Oxford
Figura 7 Leonardo da Vinci desenho do olho com lente no interior
Figura 8. 2 de maio de 2019, aniversário - 500 anos da morte de Leonardo da Vinci. Exposição temporária da única obra do autor em Portugal, FB
Figura 9 Thesauros Pauperum de Pedro Hispano
Figura 10 Pedro Hispano e seu Brasão como Papa
Figura 11 Prescrição manuscrita por Michelangelo Biblioteca Apostólica Vaticano