Dr. Campos Lopes

Ronaldo já marcou 10 golos, e já marcou 100 e talvez vá marcar 1000. Na terça-feira possivelmente fez 500 anos que nasceu Camões, mas Ronaldo já marcou de cabeça com o pé direito,  com o esquerdo e com a mão (ou seria o Maradona).

Não se foge ao destino e há pessoas do lado certo do destino.

Camões tem uma vida pouco conhecida, particularmente na juventude, e tal como Colombo dava um filme. Nem se percebe porque escritores de aventuras ainda não exploraram esse filão e não há 7 livros com teorias mirabolantes.

“Os Lusíadas” narram a epopeia da viagem de Vasco da Gama à Índia e, no percurso, a história de Portugal.

A vida de Camões também foi uma autêntica epopeia. Por razões de amores partiu para Ceuta onde perdeu um olho em combate. Mais tarde foi para Goa e ainda para Macau. Depois de peripécias e desgraças, entre elas ter naufragado na foz do rio Mekong, e de ter salvado os escritos dos Lusíadas, lá volta a casa, não sem se deter em Moçambique sem dinheiro para embarcar.

No livro “A vida ignorada de Camões” José Hermano Saraiva conta a história do que se sabe e não sabe sobre o poeta, particularmente os amores em que se envolveu em Coimbra, onde fez os seus estudos.

Em “Os Lusíadas”, escritos no Oriente sem apoio de bibliotecas, mostra-nos a sua sólida formação clássica, da mitologia à filosofia e história,  da astronomia à náutica, com a concepção da máquina do mundo, a teoria ptolomaica e a descrição dos astros. Esta erudição e a maneira como usa a língua portuguesa no poema tornam a obra num cânone sem par na literatura.

Na primeira edição de “Os Lusíadas” há 2 versões, uma com o pelicano com a cabeça virada para a direita outra para a esquerda, provavelmente devido a impressões diferentes. Curiosamente não sabemos de certeza absoluta que olho Camões perdeu em Ceuta, se o direito ou esquerdo embora mais frequentemente se fale no olho direito.

O que o sabemos é que na época, como ele próprio afirma, não foi reconhecido o seu mérito à medida da obra que nos deixou, não só “Os Lusíadas” como também a sua vastíssima produção lírica.

No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho

Camoes
Camoes

Destemperada e a voz enrouquecida,

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida.

O favor com que mais se acende o engenho

Não no dá a pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça e na rudeza

Duma austera, apagada e vil tristeza.

Figura 1. Primeira edição de 1572 dos Lusíadas em exposição na Câmara do Porto

figura 2. Retrato de Camões, edição de Emílio Biel, Porto 1880.